Eleições 2026: 60% dos conteúdos com IA circularam sem aviso, aponta Lupa
Levantamento da Lupa com a Unicamp analisou 920 publicações com IA no primeiro turno. Veja o que a regra do TSE exigia e por que o rótulo falhou.
Por
Redação
De cada dez conteúdos eleitorais feitos com inteligência artificial que o projeto VigIA analisou no primeiro turno de 2026, seis circularam sem nenhum aviso de que eram sintéticos. O levantamento, divulgado em 1º de outubro pela agência de checagem Lupa, confirmou o uso de IA em 920 publicações coletadas entre 16 de agosto e 28 de setembro. Em 549 delas não havia sinalização.
O dado interessa além da política. A eleição geral pôs à prova, em escala nacional, um rótulo obrigatório de IA com regra escrita, formato definido e sanção prevista. O resultado mostra onde esse tipo de regra funciona e onde não alcança.
O que a regra exigia
A regra está na resolução de propaganda eleitoral do Tribunal Superior Eleitoral, de 2019, atualizada para este ano pela Resolução 23.755, de 2 de março de 2026. O artigo 9º-B determina que conteúdo sintético multimídia, gerado ou alterado por IA e usado em propaganda eleitoral, informe que foi fabricado ou manipulado e qual tecnologia foi usada. O aviso deve ser, nos termos da resolução, “explícito, destacado e acessível”.
A mesma resolução obriga as plataformas que vendem impulsionamento político a oferecer um campo para declarar o uso de IA. E cria uma janela de vedação: nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à votação, fica proibido publicar, republicar ou impulsionar conteúdo sintético novo com imagem, voz ou manifestação de candidato ou pessoa pública, mesmo com rótulo.
Em 1º de setembro, o plenário do TSE fixou, por 5 votos a 2, os critérios para caracterizar um deepfake. Segundo o tribunal, é preciso que o conteúdo sintético tenha grau de realismo ou verossimilhança e que seja caracterizado como propaganda eleitoral.
O que o levantamento encontrou
O VigIA é um projeto do Observatório Lupa em parceria com o laboratório Recod.AI, da Unicamp, a FAAP e a organização Meedan. No período do primeiro turno, a equipe coletou 1.941 publicações suspeitas e analisou 972. O uso de IA foi confirmado em 920, uma média de 20 por dia.
Mais da metade era vídeo: 521 peças, ou 56,8%. Os deepfakes, que imitam pessoas reais, somaram 554, ou 60% do total.
Das 920 publicações, 371 traziam algum aviso. O detalhe mais revelador está dentro desse grupo. Em 219 casos, o rótulo foi aplicado pela plataforma. Em 152, a identificação partiu da conta, do autor ou da campanha. Ou seja, quando houve aviso, ele veio mais vezes da ferramenta da rede social do que de quem publicou.
Quem publicou
A autoria ajuda a explicar o resultado. Perfis de usuários, eleitores e militantes responderam por 434 publicações, ou 47,2%. Contas anônimas ou com avatares, por 251, ou 27,3%. Perfis oficiais de candidaturas publicaram 226, ou 24,6%, e partidos, seis.
Três quartos do material, portanto, saíram de contas que não são de candidaturas nem de partidos. Entre as 549 publicações sem aviso, 75 partiram de candidatos e partidos, segundo reportagens do Terra e de A Crítica sobre o relatório. Cristina Tardáguila, fundadora da Lupa e coordenadora do Observatório, apontou esse deslocamento na divulgação dos dados. “As campanhas sabem que podem ser punidas”, disse. Para ela, isso pode explicar por que o uso indevido parte da militância.
Quanto à finalidade, 45% das peças promoviam candidaturas, 27,6% eram humor ou sátira e 24,6% eram ataques. O levantamento também registrou ao menos 30 deepfakes que usavam a imagem de jornalistas de televisão.
A janela de silêncio
Um segundo levantamento, publicado pela Lupa em 7 de outubro, olhou para o período de vedação. Entre 1º e 5 de outubro, o projeto encontrou 64 publicações político-eleitorais manipuladas por IA, 57 no Instagram e sete no Facebook. Vieram de 57 contas diferentes, das quais só quatro eram oficiais de candidatos. Três publicações foram removidas. As outras 61 seguiam no ar quando a reportagem foi fechada.
O que dizem plataformas e tribunal
Procurada pela Lupa sobre o primeiro levantamento, a Meta afirmou estar comprometida com o processo eleitoral e disse não ter tido acesso aos conteúdos identificados. Sobre o segundo, declarou em nota que a amostragem do relatório não reflete a escala de seu trabalho de integridade. O TikTok informou ter removido 348.963 vídeos no Brasil entre 1º de junho e 6 de setembro por violações ligadas a IA, desinformação e integridade eleitoral, 99,7% deles antes de qualquer denúncia. O X e o TSE não responderam até a publicação das reportagens.
Os limites do dado
O VigIA não é um censo. As publicações chegam por envios de leitores ao WhatsApp da Lupa e por buscas diárias da equipe em redes sociais e aplicativos de mensagens. Áudios não foram analisados. Os números descrevem o que o projeto encontrou, e não o total do que circulou.
Há também uma questão de alcance jurídico. A obrigação de rotular vale para propaganda eleitoral. Parte do material feito por usuários comuns, como sátira, pode não se enquadrar nessa definição, e a tese fixada pelo TSE em setembro reforça que o enquadramento depende de o conteúdo ser propaganda.
O que fica para marcas e agências
A experiência eleitoral antecipa um problema que a publicidade vai enfrentar. Na União Europeia, obrigações de transparência para conteúdo gerado por IA valem desde agosto de 2026. No Brasil, o marco legal da IA tramita na Câmara.
Três observações saem dos números. Regra escrita não basta sem processo: quem tinha estrutura e risco de punição rotulou mais. A marcação automática das plataformas respondeu pela maior parte dos avisos, o que dá peso às ferramentas de declaração de IA no momento de publicar. E o conteúdo sobre uma marca, assim como sobre um candidato, também é produzido por terceiros que não respondem por ela.
O segundo turno está marcado para 25 de outubro, e o VigIA segue monitorando até lá. Os dados finais dirão se o padrão do primeiro turno se manteve.
Em resumo
O projeto VigIA confirmou uso de IA em 920 publicações eleitorais no primeiro turno de 2026.
Em 549 delas, ou 60%, não havia aviso de que o conteúdo era sintético.
Três quartos do material vieram de contas que não são de candidaturas nem de partidos.
Quando houve aviso, ele veio mais vezes da plataforma do que de quem publicou.
Perguntas frequentes
É obrigatório avisar o uso de IA na propaganda eleitoral?
Sim. A resolução de propaganda eleitoral do TSE, atualizada pela Resolução 23.755, de 2 de março de 2026, exige que conteúdo sintético gerado ou alterado por IA em propaganda eleitoral informe, de modo explícito, destacado e acessível, que foi fabricado ou manipulado.
Quantos conteúdos com IA circularam sem rótulo nas eleições de 2026?
No levantamento do projeto VigIA sobre o primeiro turno, 549 de 920 publicações com IA confirmada não tinham sinalização, o equivalente a 60%. O número se refere ao material analisado pelo projeto, e não ao total em circulação.
O que é o projeto VigIA?
É um monitoramento de conteúdos eleitorais feitos com inteligência artificial, conduzido pelo Observatório Lupa em parceria com o Recod.AI, da Unicamp, a FAAP e a Meedan.
O que o TSE considera deepfake?
Pela tese fixada em 1º de setembro de 2026, conteúdo sintético produzido ou manipulado por IA, com grau de realismo ou verossimilhança, e caracterizado como propaganda eleitoral.
Quem mais publicou conteúdo eleitoral com IA?
Usuários comuns, eleitores e militantes, com 47,2% das publicações analisadas. Perfis oficiais de candidaturas responderam por 24,6%.
Sobre o autor. Redação da Confraria do Marketing. Texto informativo. As observações finais são leitura dos dados do levantamento. O texto não cita candidatos nem partidos. Erros de fato podem ser apontados pela página Contato.
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